Quando esquizofrenia e uso de drogas aparecem juntos, a vida costuma ficar mais confusa, mais instável e, muitas vezes, mais solitária. Para quem vive isso na pele, pode bater a sensação de estar “perdendo o controle”: um dia dá para trabalhar, estudar, conversar; no outro, surgem desconfianças, vozes, medo, irritação, sumiços, recaídas. Para a família, é comum alternar entre preocupação, cansaço e dúvidas sobre o que fazer primeiro.
O ponto principal é entender que não se trata de escolher um problema para tratar e “deixar o outro para depois”. Em muitos casos, os dois se alimentam: a droga piora sintomas psicóticos, e a psicose aumenta a chance de uso como tentativa de aliviar ansiedade, insônia, vazio ou agitação. Existe caminho, mas ele costuma ser mais seguro quando o cuidado é integrado, contínuo e humano.
Como as drogas interferem na esquizofrenia (e como a esquizofrenia pode levar ao uso)
Nem todo uso de substância causa esquizofrenia, mas algumas drogas podem desencadear surtos em pessoas vulneráveis, piorar sintomas e atrapalhar a resposta ao tratamento. Maconha (principalmente de alta potência), cocaína, crack, anfetaminas e alucinógenos são frequentemente associados a episódios psicóticos. Já o álcool, embora socialmente aceito, pode bagunçar o sono, aumentar impulsividade e reduzir a adesão aos remédios.
Na prática, isso aparece em cenas bem comuns: a pessoa para o antipsicótico “porque está se sentindo bem”, volta a usar para relaxar no fim de semana e, em poucos dias, começa a dormir mal, ficar mais desconfiada, ouvir comentários “indiretos” na TV, achar que vizinhos estão observando. Às vezes, a família interpreta como “teimosia” ou “falta de vontade”, quando há uma mistura de vulnerabilidade biológica, estresse, ambiente e dependência.
Também acontece o inverso: a pessoa com esquizofrenia usa substâncias para lidar com efeitos colaterais, tédio, isolamento social ou sintomas negativos (como apatia e falta de energia). E aí surge um ciclo: uso para “dar ânimo”, depois vem ansiedade, paranoia, culpa, mais isolamento… e novo uso.
Vale lembrar que existe diferença entre uso pontual e dependência, mas, para quem tem histórico de psicose, até o “só de vez em quando” pode virar um gatilho importante. Se você tem essa dúvida, pode ajudar ler uma reflexão sobre consumo recreativo e riscos reais com um olhar mais pé no chão.
Sinais de alerta: quando não é “fase”, nem “rebeldia”, nem “só abstinência”
Um dos maiores desafios é diferenciar o que é sintoma da esquizofrenia, o que é efeito de substância e o que é abstinência. Muitas vezes, tudo vem misturado. Por isso, observar o padrão e a mudança em relação ao habitual é mais útil do que tentar “adivinhar” a causa exata.
Alguns sinais pedem atenção rápida, especialmente quando aparecem de forma intensa ou repentina: aumento de desconfiança, ideias de perseguição, ouvir vozes, insônia por várias noites, agitação, agressividade fora do padrão, sumiços, abandono de autocuidado e fala muito desconexa. Se junto disso houver uso recente de drogas, o risco de surto e de decisões impulsivas aumenta.
Na abstinência, podem surgir irritação, tremores, suor, ansiedade forte, alterações de apetite e sono, além de fissura. Em certos casos, a abstinência também pode vir com confusão e sintomas psicóticos, principalmente com álcool e algumas drogas. Para entender melhor o que pode acontecer nesse período, veja sintomas e sinais comuns de abstinência e como eles costumam evoluir.
Um cuidado importante: discutir “quem está certo” no auge da crise raramente ajuda. Quando a pessoa está em surto, ela pode realmente acreditar no que está percebendo. E quando está sob efeito ou em abstinência, o cérebro está em modo de sobrevivência. Nessa hora, o foco é segurança, avaliação profissional e redução de danos imediatos.
Como tratar os dois problemas juntos: o que costuma funcionar na vida real
O tratamento mais efetivo para esquizofrenia com uso de substâncias é o chamado cuidado integrado: uma equipe que não trate a dependência como “falta de caráter” nem a psicose como “desculpa”, mas como condições de saúde que se influenciam. No Brasil, isso pode envolver CAPS (especialmente CAPS AD e CAPS III em algumas cidades), ambulatórios, UBS, psiquiatra, psicólogo e, em situações específicas, internação breve para estabilização.
Na parte medicamentosa, antipsicóticos são a base para reduzir delírios, alucinações e desorganização. O psiquiatra pode ajustar doses, trocar medicações e manejar efeitos colaterais (sonolência, ganho de peso, rigidez, inquietação). Quando há dependência, pode ser necessário também tratar ansiedade, depressão, insônia e, em alguns casos, usar medicações específicas para álcool ou tabaco. O detalhe é que aderência costuma ser o maior desafio: esquecer doses, parar por conta própria ou misturar com drogas pode derrubar todo o progresso.
Na psicoterapia e no cuidado psicossocial, abordagens como TCC para psicose, entrevista motivacional e prevenção de recaídas ajudam muito porque trabalham o que acontece “na rua”: convite de amigos, briga em casa, sensação de perseguição no ônibus, vergonha de ir ao CAPS, medo de ser julgado. Também entram estratégias práticas: rotina de sono, atividades estruturadas, exercícios leves, redução de cafeína, e acordos claros sobre dinheiro e saídas.
Falando em dinheiro, esse é um ponto que costuma virar gatilho e conflito. Pequenas quantias “sumindo”, dívidas, empréstimos, vendas de objetos e atrasos podem ser sinais de que o uso está escalando. Às vezes, organizar isso com calma (e com apoio profissional) reduz crises em casa. Se esse tema pesa por aí, pode fazer sentido ler como o uso de drogas afeta a saúde financeira e quais alertas observar.
Quando considerar internação? Não como punição, mas como recurso de segurança. Em geral, ela entra quando há risco de autoagressão, agressão, incapacidade de autocuidado, surto grave, intoxicação, abstinência perigosa ou quando a pessoa não consegue se manter minimamente segura no território. Mesmo nesses casos, o ideal é que seja parte de um plano: estabiliza, ajusta medicação, organiza rede e garante acompanhamento na saída.
Como a família e amigos podem ajudar sem “virar polícia”
Quem convive com alguém nessa situação vive um equilíbrio difícil: acolher sem passar pano, colocar limites sem humilhar, proteger sem controlar cada passo. Ajuda muito trocar acusações por descrições objetivas: “Você não dormiu há três noites e está mais desconfiado; vamos procurar atendimento hoje” costuma funcionar melhor do que “Você está surtando de novo por causa dessas drogas”.
Algumas atitudes simples, mas poderosas, costumam reduzir atritos e aumentar chance de adesão: combinar uma rotina mínima (sono, refeições, horários), evitar discussões longas durante a crise, não confrontar diretamente delírios, incentivar acompanhamento regular e, se possível, participar de consultas para alinhar informações. Se houver risco, não hesite em buscar emergência (SAMU 192, UPA, pronto-socorro) e suporte do CAPS da região.
Tratar esquizofrenia e dependência ao mesmo tempo é aprender a recomeçar várias vezes sem transformar recaída em sentença. O objetivo não é “perfeição”, é segurança, estabilidade e vida possível.
Conclusão: existe saída, e ela costuma ser construída em etapas
Esquizofrenia com uso de drogas assusta, desgasta e pode deixar marcas, mas não é um beco sem saída. O tratamento tende a funcionar melhor quando é integrado, com acompanhamento contínuo, ajustes finos e uma rede que não desiste na primeira queda. Melhorar pode significar, primeiro, dormir melhor e reduzir crises; depois, manter medicação e diminuir o uso; mais adiante, retomar vínculos, trabalho, estudo e projetos.
Se você está vivendo isso agora, tente não carregar sozinho. Procure um serviço de saúde, converse com um psiquiatra, busque o CAPS da sua cidade e, em situações de risco, vá à emergência. E, se você é familiar ou amigo, lembre-se: ajudar não é controlar cada passo, é sustentar presença, limites claros e acesso a cuidado. Um passo por vez, com apoio, costuma ser o jeito mais realista de atravessar essa fase.