Por que beber para relaxar piora a ansiedade?

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Por que beber para relaxar piora a ansiedade?

Por que a “cervejinha para relaxar” pode virar combustível para a ansiedade

Tem gente que jura que só consegue “desligar” depois de beber. Um copo de vinho no fim do dia, uma latinha para aliviar a tensão, um drink para aquietar a cabeça. No começo, parece funcionar: o corpo amolece, o pensamento desacelera, a conversa flui. Só que, para muita gente, a conta chega mais tarde — e vem em forma de ansiedade.

Se você já acordou com o coração acelerado depois de ter bebido “só um pouco”, ou percebeu que a preocupação aumenta justamente no dia seguinte, não é frescura. Existe uma explicação bem concreta para isso. E entender o mecanismo ajuda a sair do ciclo de beber para aliviar e, sem querer, piorar o que você mais quer controlar.

O alívio é real, mas é curto: o que o álcool faz no cérebro

O álcool é uma substância depressora do sistema nervoso central. Traduzindo: ele desacelera algumas funções do cérebro e dá uma sensação temporária de relaxamento. Em parte, isso acontece porque ele mexe com neurotransmissores ligados ao “freio” do cérebro (como o GABA) e também interfere em sistemas ligados a prazer e recompensa (como a dopamina).

Na prática, é como se o álcool emprestasse uma calma artificial. Só que o cérebro não gosta de desequilíbrio. Quando você força esse relaxamento químico, o organismo tenta compensar para manter o funcionamento “normal”. E é aí que mora o problema: depois que o efeito passa, vem um rebote.

Esse rebote pode aparecer como irritação, inquietação, dificuldade de dormir, sensação de ameaça sem motivo claro e até sintomas físicos que assustam: tremor, suor, taquicardia, aperto no peito. Para quem já tem ansiedade, isso costuma ser ainda mais intenso — e pode virar um gatilho para crises.

A ansiedade do dia seguinte: ressaca emocional, sono ruim e efeito rebote

Muita gente associa ressaca apenas a dor de cabeça e enjoo, mas existe também a “ressaca emocional”. Você acorda com uma sensação estranha, meio culpada, meio acelerada, como se tivesse feito algo errado — mesmo quando não fez. Se isso acontece com você, vale ler sobre sentimento de culpa após beber muito, porque ele costuma andar de mãos dadas com a ansiedade no pós-bebida.

Um dos motivos é o sono. O álcool até pode dar sonolência no começo, mas atrapalha a arquitetura do sono: você dorme mais “picado”, reduz fases importantes (como REM) e tende a acordar no meio da madrugada. O resultado é um cérebro mais vulnerável no dia seguinte. Com pouco descanso, o corpo interpreta tudo como mais ameaçador, e a mente fica ruminando.

Além disso, existe o efeito rebote químico. Depois da “calmaria” induzida, o sistema nervoso pode reagir com uma espécie de hiperalerta. É como se o cérebro dissesse: “ok, agora preciso acelerar para compensar”. Para algumas pessoas, isso vem como ansiedade leve; para outras, como uma crise completa, com sensação de perda de controle.

O álcool também mexe com hidratação, glicemia e pressão, e essas oscilações podem imitar sintomas de ansiedade. Você sente o corpo estranho e interpreta como perigo. A mente faz o resto: “e se eu passar mal?”, “e se eu tiver um ataque?”, “e se eu fizer algo vergonhoso?”.

Quando beber “para relaxar” vira hábito: tolerância, dependência e mais ansiedade

Um ponto que pega é a tolerância. O que antes relaxava com uma dose, passa a exigir duas. Depois três. Não porque você “ficou mais forte”, mas porque o cérebro se adapta. E, quanto mais ele se adapta, mais difícil fica relaxar sem a substância.

É aí que o álcool começa a ocupar um espaço perigoso: ele vira a ferramenta principal para lidar com estresse, timidez, tristeza, pressão no trabalho, brigas em casa. Só que isso treina o cérebro a não aprender outras formas de regulação emocional. Aos poucos, a pessoa pode sentir ansiedade justamente quando não bebe — como se o corpo cobrasse aquela muleta.

Esse ciclo costuma aparecer no cotidiano de um jeito bem comum: a semana é pesada, a pessoa bebe na sexta para “descomprimir”, exagera um pouco, dorme mal, acorda no sábado ansiosa e irritada. Para “consertar”, bebe de novo no sábado à noite. No domingo bate um vazio, e na segunda vem a ansiedade com força, junto com culpa e medo de ter passado do ponto.

Quando isso se repete, vale observar a frequência. Beber com regularidade, mesmo em pequenas quantidades, pode ir mudando o humor de base. Se você se identifica com esse padrão, pode ajudar entender o que acontece se beber cerveja todo dia e como isso afeta corpo e mente ao longo do tempo.

Outro sinal sutil é quando o relaxamento vira “necessidade”. Não é mais “quero”, é “preciso”. E, quando não tem bebida, aparece impaciência, inquietação, sensação de que nada vai aliviar. Isso pode indicar que o cérebro já está associando descanso e segurança ao álcool — e essa associação, por si só, alimenta a ansiedade.

Como quebrar o ciclo sem se enganar: sinais, alternativas e quando buscar ajuda

Primeiro, uma honestidade gentil: se você bebe para relaxar, você não está sozinho. No Brasil, isso é cultural, social, quase automático. O problema não é “tomar uma” em si, e sim quando a bebida vira estratégia principal para lidar com emoções difíceis — e começa a cobrar juros.

Alguns sinais de que o álcool está piorando sua ansiedade (mesmo que pareça ajudar na hora) incluem: acordar frequentemente com coração acelerado após beber, sentir vergonha ou arrependimento no dia seguinte, perceber que a preocupação aumenta depois de festas, usar bebida para conseguir dormir, ou notar que sem álcool você fica mais tenso do que antes.

Se você quer testar uma mudança sem radicalismo, uma boa experiência é fazer uma pausa planejada. Combine consigo mesmo: “duas semanas sem álcool” ou “beber só em um dia específico e pouco”. Observe sono, humor, irritabilidade e energia. Muita gente se surpreende com a melhora da ansiedade basal quando o corpo tem tempo de estabilizar.

No lugar do “drink para desligar”, vale construir um kit de relaxamento realista, de vida comum: banho quente, caminhada curta no quarteirão, música no fone, alongamento, respirar com contagem, escrever o que está acelerando a mente, diminuir cafeína à tarde, conversar com alguém de confiança. Não precisa fazer tudo. Precisa ter opções.

Se a ansiedade está forte e o álcool virou uma tentativa de automedicação, buscar ajuda profissional pode mudar o jogo. Psicoterapia (como TCC) ajuda muito a entender gatilhos e criar estratégias. Em alguns casos, um psiquiatra avalia medicação com segurança — o que é bem diferente de “se virar” com bebida.

E um alerta importante: há pessoas que, na angústia, cogitam soluções perigosas e sem sentido, como ingerir produtos inadequados. Se isso passou pela sua cabeça, leia com atenção o que acontece se eu beber álcool 70? e procure ajuda imediatamente. Ansiedade mente, cria atalhos, e alguns deles colocam a vida em risco.

Às vezes, o que a gente chama de “relaxar” é só um jeito de fugir por algumas horas. O corpo até aceita o acordo na hora, mas cobra depois — e a cobrança costuma vir em forma de medo, aperto e pensamentos que não param.

Conclusão: dá para sentir alívio sem pagar com mais ansiedade

Beber para relaxar pode até parecer uma solução rápida, mas, para muita gente, funciona como um empréstimo emocional: alivia agora e aumenta a ansiedade depois. O efeito rebote, o sono prejudicado, a ressaca emocional e o risco de tolerância criam um ciclo que vai ficando cada vez mais difícil de perceber por dentro.

Se você notou esse padrão, tente olhar para si com menos julgamento e mais curiosidade. O que você está tentando aliviar? Cansaço, solidão, pressão, insegurança? A resposta não precisa ser perfeita hoje. Mas pequenos ajustes — reduzir a frequência, fazer pausas, criar outras formas de relaxar e buscar apoio — já mudam bastante o cenário.

E, se estiver difícil demais sozinho, isso não é sinal de fraqueza. É sinal de que você merece suporte. Ansiedade tem tratamento, e a vida pode ficar mais leve sem depender de um copo para respirar.

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